• Henrique Rochelle

Repetição como texturização

Performático e protocolar, “Veludo Preto” carece de direção cênica que construa para além de seu discurso as texturas a que se propõe.



“Veludo Preto” é uma obra de texturas, construídas através do diálogo cênico entre a luz e os corpos em cena. Criação de 2016 de Shamell Pitts, Mirelle Martins e Lucca Del Carlo, esteve no Brasil em meio a uma turnê internacional. Performática, seu discurso é pungente: a obra propõe falar das muitas cores da negritude, da mulher preta, da relação de amor, de compaixão, de companheirismo, das distâncias e dos sistemas a serem rompidos. Porém, seu discurso interessa pouco em seu resultado estético, que é sensível, mas de uma outra ordem, organizando imagens e tensões plásticas, mas não lógica ou articulações.


Cumulativa, “Veludo Preto” vai sobrepondo imagens e entendimentos que podemos fazer dos bailarinos que vemos em cena, assim construindo sua tessitura e sua textura. Um foco processual parece orientar a progressão do trabalho, que vai colando um procedimento no seguinte, em cena, num todo que parece, no geral, simplista, performático, protocolar, e carente de direção e de continuidade cênica.



Não se trata de uma expectativa de enredo, mas de um ancoramento maior das questões que são apresentadas no programa dentro das realizações cênicas. Essas, criam inevitavelmente um efeito de intensidade, mas que é produzido não pelos conteúdos apresentados, mas por sua repetitividade. Às vezes beirando o exaustivo, a repetição de fórmulas e processos cênicos transforma a simplicidade num todo hipertexturizado e hiperestimulante, no qual público e intérpretes se perdem e se dissolvem.


Sem direção assinada, as escolhas feitas para a composição parecem se pautar num constante questionamento de “o que queremos fazer depois disso?”, como se víssemos um laboratório de criação transposto ao espaço de apresentação. Nesse espaço, porém, há um notável cuidado com luz, com direção de arte, figurino e trilha sonora que ajudam a compor o todo, mas que não são o suficiente para costurar o talento e a expressividade dos performers e dos demais colaboradores em uma unidade.


Ai, acabamos nos perdendo no meio do caminho do entendimento dessa textura, desse tecido cênico. De um solo feminino de acalanto para um solo masculino energético para um duo de embate e resistência — a progressão, a insistência e a repetição de diversos impactos arrisca causar seu efeito contrário, anestesiante: evidência da falta de um olhar mais de fora, que conseguisse juntar as muitas propostas desse grupo de artistas, que são notáveis individualmente, mas menos impactantes nesse conjunto.


Essa questão é perceptível desde a cena inicial, em que Mirelle Martins recebe o público do alto de uma escada, numa penumbra especialmente plástica. Com seu corpo cortado pela cenografia da cintura para baixo, passamos um longo momento presos em um único gesto, em uma única situação, que vão diminuindo o impacto e o efeito desse corpo colocado surpreendentemente tão alto. Enquanto observamos o longo prólogo, o seu impacto vai se dissolvendo entre as ações de “entrar no teatro”, “encontrar o assento”, “esperar todo o público estar sentado”, “esperar o terceiro sinal”, e “esperar o começo — real — da obra”.


Quando a escada, acionada por Shamell Pitts, que no momento ainda não vemos — ele está oculto debaixo da escada e da saia que se prende à cintura de Mirelle — começa a se mover pela cena, seu impacto já é menor do que potencialmente seria, não tivéssemos passado tanto tempo já observando essa estrutura. Por outro lado, a luz de Lucca del Carlo, trabalhada aparentemente inteira por projeção, é o grande destaque do espetáculo, não tanto por sua interação com as outras partes, mas porque, dentre os elementos, é o que, sozinha, melhor se sustenta enquanto unidade.


Esse aspecto de algo segmentar alimenta o entendimento de “Veludo Preto” como uma instalação performática, que seria melhor apreciada, por exemplo, no meio de uma exibição de outras tantas obras, e que pudesse ser acessada pelo público às partes, com cada pessoa entrando e vendo dela o quanto lhe interessasse. Ai, o efeito do repetitivo serviria a uma causa maior do que a obra em si, e a eficiência de sua estrutura cênica não pareceria desgastada pelos desejos fugazes que parecem guiar a progressão cênica a que assistimos.


No entanto, apesar da pouca conversa entre os diversos elementos, há uma boa conversa entre os corpos dos dois intérpretes, que trabalham o mecânico, o energético e o repetitivo em interações nas quais um corpo se perde no outro. Especialmente interessante é que as qualidades corporais dos intérpretes são tão individuais e distintas que podemos identificá-los, mesmo nas misturas mais intensas de seus movimentos, que são também acentuadas pela caracterização quase idêntica dos dois em figurino, e nas cabeças raspadas de ambos.


A maleabilidade — de corpos, de cena, de movimento, e de luz — faz pensar, muito mais do que no veludo do título, em seda: fria, escorrendo, quase líquida, moldando o corpo e o espaço, e constantemente refletindo brilho. Independentemente, título, proposta e elementos são belos, tal qual o tecido — mas lhes falta algo que dê uma forma mais tangível ao todo, a partir de suas tantas partes, e crie, nessa textura que propõe, um sentido.


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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

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