• Henrique Rochelle

Uma nova arca de Noé



* escrito para o Criticatividade


É com o título da obra vibrando na ponta da língua, como tambores rufando, que somos apresentados ao universo de “Trrr” de Thiago Granato. Uma odisseia pós-apocalíptica, re-colonizadora, que investiga o rastro humano pelo universo, suas marcas, seu esquecimento, e seu reestabelecimento.


De princípio, a obra já parece algo de inusitado. Não à toa, ela é dançada no Sesc Avenida Paulista, que desde sua inauguração tem deixado bem registrada a sua cara, e a cara de sua dança. Sua inauguração ainda não completou um ano, mas ir até lá para ver dança já carrega um tanto de expectativa, porque aquilo que é mostrado em seus espaços parece ser sempre de uma mesma estirpe: dança experimental, protocolar, teatralizada, e de pesquisa.


O interesse no trabalho de Granato, no entanto, felizmente é muito maior do que a categorização de sua proposta. Ele é um bailarino de conteúdo corporal como poucos são. Do tipo que sustenta uma cena apenas andando pelo espaço, só pelo deslumbre e fascinação que é possível ter da forma como movimenta seus pés: intenção a cada dedo flexionado.


Se é sempre um prazer ver um bailarino de qualidade em cena, para o prazer realmente se realizar precisamos de um tanto de desenvolvimento. Enquanto ele faz sua longa caminhada, contornando o espaço da cena completamente ladeado por plateia (outra marca dos trabalhos que ocupam esse Sesc), ouvimos uma frase que dá o tom da obra: “é uma loucura pensar que tudo que aconteceu aqui vai desaparecer”.


E aqui, ele faz a primeira ligação indispensável entre seu tema e sua dança. No instante que sucede a realização de um movimento, ele já começa a desaparecer. Guarda-se, claro, em memória, e nos corpos de bailarinos e público. Mas memória é coisa viva e complexa, transformativa, que reconstrói, apaga, refaz, recobre de novos sentidos. 


Refazer uma dança é, em princípio, atividade semelhante a refundar uma civilização. Lidamos com o que se consegue recuperar e transmitir, aceitando, de partida, que a recriação será completamente nova, e não poderia ser de outro jeito.


Em sua caminhada quadrada, a alteração das formas como o corpo se apresenta nos mostra, na prática, o quanto é possível mudar do sentido de alguma coisa, sem, em certos níveis, não mudar completamente nada.


Seu trabalho explora a oposição entre o corpo expandido e o corpo concentrado. Granato é ator de uma escola de gestos, em que todas as potências do corpo são gestuais, e podem ser carregadas de significado. Não se trata de buscar a cada gesto um sentido associado, um entendimento, e sim de observar a quantidade imensa de intenções que se traduzem em corpo, em corporeidade, em formas de se mover.


Em seu mundo pós-apocalíptico, há diálogo com a máquina, representada em cena, em luz e em voz. Dela, ouvimos sobre a forma como o processo de reconstrução aqui discutido se dá: um backup de um backup de um backup do universo. Nesse confronto entre o orgânico e o sintético, questionamos com quem acontece seu diálogo. Homem, máquina, consciência, universo?


É sua corporeidade densa e desgarrada que garante o tom de fim do mundo, de uma nova colônia espacial, de refundação da Terra. Argonauta-astronauta, ele vive em cena o embate do passado que foi interrompido, e a esperança vaga de sua continuidade incerta, inconstante, arriscada.


Uma nova arca de Noé, mas de um homem só. E nele, os resquícios de todo o passado do resto do universo. Esperança vã de continuidade que se sabe um novo começo. Re-começo, em que o “re” faz tão pouco sentido quanto o “começo”.

Tudo é novo, mas tudo é uma versão do que já foi. Comprimido, corrompido, o backup do backup do backup de tudo. Despejando novas memórias sobre solo infértil para criar lembranças de algo que nunca mais existiria.

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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

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