• Henrique Rochelle

Redescobrir sentidos na distância

Repensada como uma “proposição poética para as telas”, ELO, da T.F.Style procura as formas de refazer sua discussão, que parte da proximidade para enfrentar o espaço, e, agora, também a distância.



ELO, uma proposição poética para as telas

T.F.Style Cia de Dança

Direção de Igor Gasparini

Transmissão em tempo real via Stream Yard

Casa de Cultura da Freguesia do Ó - Salvador Ligabue / Sec. de Cultura de São Paulo

5 julho 2020


Uma das grandes complicações que a dança enfrenta nesse momento de sua transposição para as telas é o ajuste forma-conteúdo. Entre a falta de experiência com o formato, o conhecimento das técnicas específicas do video, e a dificuldade de simplesmente continuar conteúdos anteriormente trabalhados , algumas companhias têm enfrentado momentos de seca criativa. Esse não é o caso da T.F.Style.

Apesar do estado de exceção da pandemia, a companhia não interrompeu suas atividades, repensando sua estratégia e rotina de trabalho para os meios e formatos disponíveis. Ainda mais, o grupo teve um tanto de sorte para continuar com o trabalho dentro do tema de seu mais recente espetáculo, ELO.


A rápida estreia no fim de 2019, reconhecida com um APCA, teve apresentações canceladas nos últimos meses. Nesse contexto, o grupo aproveitou para repensar ELO — mas com uma lógica que funcionou parecendo quase que natural.


A versão cênica de ELO mostrava seu foco no espaço, e na associação dos bailarinos, do individual ao acompanhado e chegando ao coletivo que se tornava maior e transpunha até mesmo os limites e estruturas do ambiente. Com o isolamento, a obra perdeu possibilidades de associação, e o espaço se transformou drasticamente: da praça na entrada do Sesc Santo Amaro onde estrearam, para os cômodos das casas dos bailarinos.


A investigação, apresentada como “uma proposição poética para as telas”, mantém seu desejo de discutir o espaço, sua observação e a participação do público. Essa participação agora inclui a exploração dos espaços cênicos íntimos, que são descobertos numa estratégia que lembra um sound promenade — instalação artística de movimentação pelo espaço guiada por uma faixa de áudio — pelas casas do elenco.


Esta é uma das estratégias que chegam com a nova estrutura imposta (aqui tratada como potência estética). A mais significativa dessas novas estruturas é um sistema de direção de video, trabalhado em direção de edição: a obra se mostra através de diversas câmeras, cuja apresentação, tamanho e correlação no espaço da tela do espectador, são feitas ao vivo por um editor — considerável avanço no formato “assistir dança como se fosse uma reunião virtual”.


Esse processo de retrabalhar uma obra de cena para o virtual não é algo que funcione para qualquer trabalho, mas este caso mostra vantagens. Essa é uma obra naturalmente multi-facetada, feita para o espaço aberto, para ser olhada pelo público espalhado pelo espaço, sem um sentido ou direção corretos. Com isso, o presencial já lidava com um efeito grande de parcialidade: me faltam olhos e corpos para assistí-la de todos os lados.


Se no virtual essa parcialidade também é ponto de partida, é fato que com as várias câmeras, ângulos e a montagem, temos uma multiplicação dos olhares possíveis. Porém, as câmeras lidam não só com ângulos, mas também com qualidades de gravação e captação de imagem. Ganhamos novos corpos, novos olhos, e cada um desses olhos enxerga diferente. Capta luz, arrasta um lag do movimento, muda intensidade, constrói alteridade…


Assim como para os artistas, é um processo também para o público aprender a lidar com esse sistema, com esse jeito de ver dança. Reajustar as formas de interação se tornou uma tônica inevitável. A versão presencial de ELO faz um retrato da condição humana: coletiva, conjunta, agrupada, buscando interações, associações. ELO na tela mostra essa condição hoje: em meio ao silêncio do distanciamento, redescobrimos e inventamos formas estar perto. Subimos pelas paredes, e às vezes não só metaforicamente.


A investigação coloca em cena e em reflexão o estar sozinho, o ser sozinho, o corpo como lugar, a casa como lugar do corpo, e os desdobramentos, do indivíduo-corpo, do sujeito-casa. E tudo se explora com corpo em espaço, que é matéria-prima da dança, e por isso caminha para respostas eficientes, que espertamente funcionam em ELO.


Fica em destaque na versão virtual uma investigação nova, ou mais evidenciada pelo trabalho, do corpo em partes, que se reflete também nas indagações do corpo em live, ou durante reuniões virtuais: segmentado, parcializado, com o rosto na tela seguindo um conteúdo tão próximo, e ainda tão distante.


Sozinhos ou com seus parceiros de casa, os bailarinos vão trabalhar apenas em formatos de solos ou duos. E a construção dos espaços permite, às vezes, criar outras distâncias ou proximidades. Mas é nos pequenos módulos coreográficos que, raras vezes, e mais ao final do trabalho, encontramos algum alívio no sentido de ainda dançarmos juntos.


Mesmo que a investigação não se conclua, e ainda esteja num processo de elaboração um tanto aberto, ELO serve para mostrar possibilidades cênicas, num cenário incerto e ainda pouco desenvolvido. Seu caminho trilha pelo adaptar e avançar com muito de um processo já existente. Essa saída dificilmente serviria a qualquer grupo e obra, mas aqui ela funciona, através de um esforço de trabalho consistente.

0 visualização

Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

Os textos publicados anteriormente (2013 - 2017) no da Quarta Parede continuam disponíveis no domínio original

  • Facebook Social Icon
  • LinkedIn Social Icon
  • Criticatividade