• Henrique Rochelle

Um apelo neoprimitivo

Com a plateia no meio da cena, a T.F. Style constrói o espaço urbano aglomerado e incômodo, onde os corpos são desfeitos e refeitos por lógicas do espaço, e encontram nos bandos as possibilidades de sobrevivência.



Em meio ao caos da cidade, o corpo se torna menos: algo que mistura prédios e asfalto com um tanto do sujeito e quebra a sequência lógica, a corrente da continuidade e de existência de um copo em seu espaço e tempo. Ou, pelo menos é isso que a T.F. Style Cia de Dança parece nos mostrar em seu espetáculo “Carne Urbana”, dirigido por Igor Gasparini.


Em uma cena aberta que convida a plateia a participar, de certa forma, da obra, encontramos uma dramaturgia de protocolo: a coreografia parte de um acordo de sequências de momentos e de suas ações, pautados pelo silêncio das pausas de movimentação do elenco, e preenchido de alguns módulos coreográficos que trabalham em referências mistas, sobretudo a partir de danças urbanas, de grandes passagens de chão contemporâneas, e uma enorme quantidade de exercícios de bandeja — com os bailarinos andando pelo espaço e ocupando-o —, em meio à plateia transformada em cenário.


Trata-se de uma tradução primordial, mas também primária, do espaço urbano e sua super-ocupação dinâmica. A constância desse tipo de construção, esteticamente, no mundo e nas reflexões sobre a cidade, aqui leva a aglomerações que se transformam em bolos, massas de copos que perdem a distinção e a individualidade ao se fundirem, adotando até a mesma respiração.


A plateia que se aventura mais adentro da cena — na qual somos convidados de certa forma a intervir — fica presa na posição incômoda de se tornar espetáculo, em um efeito colateral da proposta da obra. Ser assistido pode ser um desejo, as vezes até reprimido, mas não é (ou não deveria ser) o motivo para o público sair de casa para uma apresentação.


O que explica essa proposta é sua nomeação de instalação coreográfica, a partir da qual vem a pergunta acerca de que dinâmica é aqui proposta com o espaço, e o que pode fazer dessa obra uma instalação — algo que seja diferente de uma outra obra não-instalação de dança. Não se trata de limitar a definição ao uso do espaço partilhado com a plateia, que não é exatamente novidade, nem instalação. A fórmula aqui é a de uma pseudo ativação. Pseudo porque de fato não influenciamos tanto assim na obra, enquanto público. Não é ação do público que faz a obra funcionar ou deixar de funcionar, que constrói e reconstrói suas dinâmicas, ou que faz com que os módulos e protocolos aconteçam. Há, no entanto, um processo oposto de ativação: não o público que ativa a obra, mas a obra que ativa o público.


A dinâmica da obra propõe a reflexão da nossa inserção na cena através da artificialização de um processo que se encontra em princípio no natural no corriqueiro, no cotidiano — mas que é a matéria e desejo de discussão desse grupo. Se eles olham para espaço urbano e vêem o quanto ele nos molda, a resposta encontrada para fazer-nos sentir a força e o efeito desse mudar vem na colocação do público em meio ao palco, em meio as luzes e o calor incômodo que constroem o ambiente desagradável da cena partilhada.


Na balança, a perigosa questão do elemento que é feito para causar incômodo ou que desconsidera a experiência do público — e o efeito que esse desagrado pode ter, traduzindo-se em indisposição. Ainda que aqui esse efeito pareça honesto e real frente ao objeto sobre o qual se reflete, numa obra que se propõe dependente da disposição da plateia, como é o caso dessa, é sempre arriscado trabalhar o público a partir de sua indisposição.


Esse processo, encadeado pela perspectiva que temos a partir de dentro da obra se reflete em um pedido que na verdade é uma necessidade de disponibilidade da plateia: a obra não é visível em plano aberto, e será vista apenas a partir de nossas interferências, de nosso posicionamento, de nossa disposição ou indisposição para nos movimentarmos pela cena — e guiada pela tendência natural de que o olhar se fixe naquilo que está exatamente em frente, seja isso obra ou público distraído, a menos que algo chame atenção para as laterais. Por vezes, a atenção é chamada, e passamos a seguir uma cena — mas o incômodo das luzes mantém o risco de cortar o momento —, o que ocorre especialmente quando é possível ver, na interpretação de alguns membros do elenco, o sucesso dos trabalhos com as técnicas corporais que aqui são propostas.


Porém, dentro desse tema que se dirige a uma espécie de anulação ou negação, de uma continuidade quase mecânica ou automática pela sobrevivência, o palco nos traz uma cena em que pouco acontece. Nessa proposta, cativar depende fundamentalmente de elementos que não têm a vantagem dos grandes gestos ou dos grandes feitos, restringindo-se a olhares e tonus dos intérpretes. Alguns serão incrivelmente potentes — e se estivéssemos em alguma outra disposição espacial, talvez não tivéssemos a oportunidade de encontrar a luz e de dividir com eles o momento de confidência que é partilhada pela cena. O que eles nos contam, no entanto, para além do “somos todos algo do mesmo”, permanece em segredo.


Misturando trilha sonora e paisagens, a ambientação da obra é interessante por suas múltiplas referências, que a um tempo adicionam a um pitoresco, e impedem a determinação de um espaço de origem. O mesmo se dá pelo figurino, de jeans e blusas de meia-calça rasgadas e em amarras: estamos em qualquer lugar, estamos em todos os lugares.


No conto da pós-modernidade, o corpo urbano não é específico. Ele é genérico e até impessoal, impermanente, descolado do espaço, do tempo, do indivíduo, do propósito. Ressurge, então, a dominação do instintivo e do animalesco: um chamado neoprimitivista. Entre o aspecto no geral sóbrio e até sombrio do elenco, vai se mostrando a mensagem-chave da obra: só os conjuntos conseguem escapar do esvaziamento e da naturalização que o espaço urbano imprime sobre os corpos, como se fossem grafite: ao mesmo tempo destacando e apagando um prédio. Só em grupo, e só em instintos, os indivíduos desconfigurados pela selva da cidade encontram sua carne.

35 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

Os textos publicados anteriormente (2013 - 2017) no da Quarta Parede continuam disponíveis no domínio original

  • Facebook Social Icon
  • LinkedIn Social Icon
  • Criticatividade