• Henrique Rochelle

A vontade de dançar como mantra

‘Respiro’, nova criação de Cassi Abranches é o reencontro da SPCD com a plateia, depois de meses de distanciamento.



Aproveita o escuro da sala e a sugestão do título da nova coreografia de Cassi Abranches e respira profundamente, de olhos fechados, umas três vezes. Não precisa se preocupar, não tem risco de perder nada do trabalho, que começa no escuro, e tranquilamente vai deixando a música da trilha sonora de Beto Villares preencher a sala e a nossa cabeça.


É um momento de calma, uma proposta de bem-estar, feita pra fazer a plateia estar bem. No meio do caos do mundo, que há meses parece estar acabando, a São Paulo Companhia de Dança, pela primeira vez reencontrando o público presencialmente no Teatro Alfa, estica os braços, levanta e sustenta uma perna, e respira. Quinze minutos pra desligar da vida lá fora.

Respiro não é uma obra vítima de condições. Ela não acontece apesar do que estamos passando nesse momento. Ela acontece para além do que estamos vivendo. Ela é esperta já em seu ponto de partida: o questionamento do que nos faz bem. As respostas criam propostas de cenas, que em conjunto enchem os olhos de gosto e o peito de calma. Ela tem restrições, evidentes também pelos recortes de luz de Gabriel Pederneiras (que criam uma cenografia espacializada pela iluminação), mas ela não é sobre aquilo que falta: é uma obra sobre o que tivemos de bom, sobre as coisas que nos seguraram e nos deram força pra continuar.


É quase um mantra, inteiramente feito de presença e boas vibrações. E elas chegam em cena com força, num fundo vermelho intenso, iluminado no contra, no qual vemos a silhueta de Yoshi Suzuki numa sequência coreografada de movimentos e poses do Tai Chi Chuan. A música dita um ritmo e um pulso, que abrem o espaço para a surpresa e a contemplação — praticar e mover fazem bem, mas assistir também.


Um duo feminino, delicado e intenso, parte da ideia e da vontade de um abraço. A coreografia trabalha o espaço negativo entre os corpos das bailarinas pra nos mostrar as possibilidades de aproximação. São mãos que resvalam, e corpos que descobrem seus outros apoios e contatos, bem trabalhados em ombros, cotovelos, antebraços e pernas que se alcançam em pequenos toques, que impulsionam e mantêm a dinâmica de um giro, como se as bailarinas valsassem, buscando um abraço, que se concretiza no final da cena.

O abraço talvez seja o único toque dessa obra toda, e, no entanto, ela não é solitária. Ela se preenche em luz, em corpos e em movimento conjunto. E se desenvolve por resposta e aproximação, especialmente bem ilustradas na cena que nos mostra um bailarino, ao qual se junta um segundo, depois um terceiro, e finalmente uma quarta. Por vezes sozinhos, outras juntos, eles mostram elementos e módulos de movimento, que são retrabalhados e reaproveitados, entre eles, que parece que conversam, concordam, debatem, e, acima de tudo, se divertem.

O papel feminino dessa cena, de Letícia Forattini, é um dos que melhor ilustra as dinâmicas corporais mais perceptíveis dessa coreografia, inteira trabalhada a partir do acento. Ela carrega uma referência interessante a estilos de coreografia de jazz e de danças urbanas, misturando intensidades de pulsos. É um peito que bate, quase como um coração saindo pela boca, uma perna que se lança leve, mas pisa o chão de uma vez e com força, como se marcasse seu território. Sempre movimentos intensos, sempre dinâmicas pra tirar o fôlego.


O principal respiro do trabalho é o solo feminino — ainda uma marca nos trabalhos de Cassi Abranches — aqui, feito para Thamiris Prata. Os solos de Abranches costumam se disfarçar em aparente facilidade. Eles trabalham pela leveza, pelo corpo que se lança no espaço, mas é tão centrado que sabe pra onde volta, mesmo explodindo em todas as direções. A falsa simplicidade, a ideia de que não há esforço (claramente opostas à real complexidade da movimentação) criam uma aura reflexiva e pacífica, ainda que em meio ao explosivo — um ótimo retrato de maturidade, um constante desafio de interpretação.

A finalização do solo, que emenda no conjunto final, é aquele ponto de interesse que marca a memória. Um movimento de caminhada, mas sem deslocamento, perfeitamente marcada com o pulso da música no pé, e o ritmo nos braços. É um daqueles jogos de movimento que não dá pra não olhar com um sorrisinho de canto de boca e pensar algum bom elogio. É simples, é metafórico em muitos níveis, mas, acima de tudo, é lindo, e dá uma vontade imensa de mover junto.


É isso que Respiro faz: dá uma vontade imensa de dançar junto. Ao ponto de esquecermos a plateia. Ao ponto de esquecermos o mundo. Por quinze minutos, a gente divide com um elenco afiado um momento único de contato e proximidade, e quando a gente se percebe ali, o que salta aos olhos é um delicioso “é, é disso que a gente gosta”, porque é bom, porque é gostoso, porque faz bem, porque traz paz, porque faz a gente respirar mais leve. Ai você fecha os olhos, respira profundamente três vezes, e espera a próxima chance de assistir a Respiro.


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