• Henrique Rochelle

O corpo e suas partes

Entre a calma e o caos da sala de ensaio, vai se fazendo uma obra. Um pouco dos bastidores de “Os Amores do Poeta” da SPCD, criam a antecipação para a estreia.



Era de se estranhar o silêncio da sede da São Paulo Companhia de Dança no dia que cheguei para acompanhar um dos ensaios de “Schumann ou Os Amores do Poeta”, que a companhia estreia essa semana no Theatro São Pedro. Em meio às muitas atividades de um agosto surpreendentemente agitado, boa parte da companhia estava em outros locais, enquanto quatro dos seis bailarinos que dançarão essa obra se ocupavam da criação de Milton Coatti, que coreografa o primeiro ato do programa, junto de Cassi Abranches, que assina o segundo.


No meio do silêncio, o volume da música de Schumann preenche o espaço, enquanto o coreógrafo experimenta uma ou outra proposta de movimento, antes de sugerí-la e vê-la realizada pelos bailarinos. Coatti coreografa com as bailarinas nas pontas, mas com um tanto de novos ares — tem linhas clássicas, mas encaixes e progressões que se conversam em novas estruturas. A combinação parece certeira para a SPCD, que mistura em sua tradição esse diálogo entre obras do clássico ao contemporâneo, e de cuja história o coreógrafo faz parte por mais de um viés, tendo integrado a companhia em seu primeiro elenco, há 10 anos, e atualmente fazendo parte da equipe de ensaio.


Com essa proximidade, ele é da casa, e tem toda a vantagem de coreografar entre amigos, pares e parceiros de trabalho, estendendo sua experiência para o entendimento do corpo daqueles bailarinos como se fossem o seu próprio, e lidando com eles como lidaria consigo. Sua dinâmica de criação é musical e musicalizada — algo bem cabível para essa proposta de balé contemporâneo (para emprestar o termo que tenho debatido atualmente): lugar acertado para a SPCD, que reserva grandes e novas oportunidades para intérpretes, para criadores, para o grupo, e para o público, preenchendo um tanto de uma lacuna estética de São Paulo.


Num outro dia, observando Abranches coreografar, não era possível deixar de notar as curiosas diferenças entre um e outro. Frente a música, Coatti se agitava, experimentava, e passava para os bailarinos testarem. Abranches, abaixada e no silêncio, olhava fixamente para um ponto no espaço, com os olhos vidrados de quem procura caminhos pelo corpo sem se mexer. Aquele era um silêncio assombroso. A sala de ensaio acabava de se esvaziar, e ela trabalhava numa passagem para apenas dois bailarinos. Meio de canto, eu olhava curioso, me perguntando o que sairia dali — o que se passa e como se organiza a cabeça de um coreógrafo.


O resultado era uma sequência longa de movimentos, trabalhada por bastante tempo antes que a música desse trecho fosse colocada no som da sala. Ali, entre as repetições, minha primeira escuta da música foi pelos corpos dançando. Quando a trilha é finalmente tocada, ela soma, mas não altera a minha percepção, levada inteiramente pelo movimento. Tudo já está lá, sendo dançado por eles. E esse é um lugar fundamental para esse tipo de parceria.


A obra é mais uma colaboração da SPCD com o Theatro São Pedro, de onde vem a direção teatral, a música, e os cantores líricos que integram a proposta. Ano passado, a colaboração anterior desses grupos foi o “Pulcinella”, bela surpresa na temporada da SPCD. Esse ano, um passo ainda maior, e com ainda mais dança. Todos os envolvidos me falam sobre o quanto a obra muda com a participação cênica dos cantores — que eu ainda não vi —, e sobre a generosidade e talento deles. Mas nada tira a minha percepção de estar assistindo a uma obra de dança. E assim como essas peças podem ser tocadas e cantadas num recital sem coreografia, na minha cabeça elas agora podem ser simplesmente dançadas. A lírica vai abrindo oportunidades para os projetos de arte total que a sustentaram por tanto tempo, e recebe generosamente a contribuição intensa da dança.


A estrutura aqui é múltipla. Elenco de bailarinos, elenco de cantores, músico, cenários, figurinos, e dois coreógrafos investindo em caminhos bastante distintos. Sem o acesso aos outros elementos, eu me ocupava em encontrar os encaixes nas coreografias, me perguntando o quanto deles era programático, e o quanto só fazia parte de um entendimento compartilhado da obra — à maneira da arte — que esse elenco e esses coreógrafos trazem à cena.


Eu via os braços, seus ângulos e articulações que se propagavam de um ato ao outro, de um coreógrafo à outra, e me perguntava se em algum momento eles haviam decidido usar ombros e cotovelos como direcionais, ou se isso era o resultado de algo que dividem silenciosamente no entendimento da obra. Eu via as torções e alterações de direção, e voltava à questão. Para não estragar a mágica, não perguntei — e não precisaria perguntar. O importante não é de onde veio a decisão, mas o quão acertada ela parece, e o quanto o tanto de ímpeto de ambas as coreografias me sugere a contração — violenta — do coração, bombeando sangue pelo corpo todo.


É curioso assistir à obra assim, sem programa, sem release, e, com aquele tanto de letra, mas cantada em uma língua que eu não entendo e que não poderia me dar nenhum apoio. Sem cenário, sem luz, sem figurino, sem nenhuma sugestão além do movimento, sendo construído naquele instante e na minha frente. Por alguns instantes eu tentava imaginar o que mais seria proposta para complementar a obra. Mas logo, a gente se perde na densidade de tanto trabalho de corpo, de um elenco tão disposto e entregue, e nada mais existe.


As coreografias me falam da música, mesmo quando ela não é tocada. E, em meio a drásticas oposições de estilo e linhagem, elas falam entre si. O desafio maior é para o elenco, mas não há nenhuma expectativa de que eles não deem conta desse universo todo. A segunda repetição já é melhor que a primeira, e a terceira melhor que a segunda. Quando eles dizem que ainda precisam trabalhar em uma coisa ou outra, me insiste que, sim, sempre é possível trabalhar, mas que eu estou ali, vendo um ensaio e o momento em que eles se descobrem nos movimentos, e o todo já é cativante.


Vejo os coreógrafos e suas muitas anotações sobre a obra e a proposta, as correções de Inês Bogéa, diretora da companhia, e, especialmente interessante, o trabalho de Daphne Chequer e Beatriz Hack, ensaiadoras da obra. Já elogiei muitas vezes o trabalho cênico de Hack, mas há algo de especial em vê-la ali no canto, captando a coreografia, e algo de ainda mais especial na forma como ela repassava algumas correções em outros momentos.


Poderia dizer que o conjunto parece uma máquina de boas engrenagens, mas a metáfora seria péssima para esse tipo de trabalho. O que vemos é um corpo, seus sistemas e suas partes dependendo, umas das outras, e trabalhando, umas com as outras, para o funcionamento. Em constante movimento. O resultado, desse movimento e dessa organicidade toda, chega ao palco do Theatro São Pedro no final dessa semana. São só três apresentações, só três chances de ver a realização de tanto trabalho. Mas essa dança tem força e tem corpo para ser dançada por muito mais tempo. Daria para testar a sorte, na espera de próximas vezes, mas não recomendo.





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A produção do Santa Marcelina Cultura vai ao palco do São Pedro de 31 de agosto a 2 de setembro, com direção de William Pereira, direção musical de Ricardo Ballestero, e coreografias de Milton Coatti e Cassi Abranches, para o elenco de Música de Câmara do Theatro São Pedro e da São Paulo Companhia de Dança.


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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

Os textos publicados anteriormente (2013 - 2017) no da Quarta Parede continuam disponíveis no domínio original

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