• Henrique Rochelle

Percepção e afirmação, num jogo de realidade

Meio brincando, meio falando sério, Alex Soares constrói percepções de masculinidades (frágeis) em cena.



É como uma brincadeira, entre o infantil e o adulto, que Alex Soares discute a aceitação dos homens de seu lado feminino, em “Predicativo do Sujeito”, criado para o Grupo Divinadança em 2012, dançado também pelo Balé Teatro Guaíra, e agora estreando pela sua companhia, o Projeto Mov_oLA, dentro da programação da Semana Paulista de Dança.


A obra começa com seis bailarinos em roda, uma brincadeira cujo andamento é ordenado pela única bailarina que integra o elenco, sendo arrastada em volta deles, e determinando quais saem da roda, tentando se alcançar. Essa primeira construção de uma competição entre os homens vai se reverberar ao longo do espetáculo como uma competição de masculinidade e de auto afirmação, em rituais de paralelos sociais atuais, em múltiplas escalas.


O jogo se faz competição, mostrar de poder e de força, somadas em um conjunto de cenas simples, que usa o chão, o espaço do palco recortado em diversas iluminações, mas também um sofá-cama inflável, que permite outras formas de movimentação. Os corpos trabalham pelo tônus e pela virilidade, se mostram em exibições de força e poder, do másculo, dosadas com pequenas situações, entre o cômico e o reflexivo, que ora trabalham a aceitação de uma faminilidade interna, ora a refazem como uma delicadeza de afetação perigosamente cômica.


Perigosa, porque tanto a questão da mulher na sociedade atual quanto a questão dos preconceitos com LGBTs (especificamente os afeminados) nos são prementes, e são tônicas pesadas no Brasil, que registra um grande preconceito que se mostra em formas de violência. Terreno, portanto, arriscado para propor uma obra, mas que se realiza com sucesso. Sem condescendência, mas sem diminuir essas questões, Soares consegue articular esse espaço indeterminado que se reflete num momento entre o lúdico e a comédia de modos, refletindo de forma leve sobre uma masculinidade frágil.


Não só o tema é arriscado, também a escolha da trilha sonora, que pega um primeiro momento de ambientação bastante contemporânea e um segundo momento co o Bolero de Ravel. Uma das trilhas mais coreografadas de todos os tempos, essa música carrega naturalmente um tanto de expectativa, acerca de sua circularidade, de sua progressão dentro de um mesmo tema, que costuma ser trabalhada por aqueles que a usam para a dança.


É a inventividade do momento prévio, e a bela realização do todo da obra,que aliviam essa expectativa por algo específico — que dá conta de ser atendida, mas sem ser entediante. Ainda que trabalhe a partir de clichês do imagético do masculino, a proposta da obra não é em si um clichê, e ganha força por articulações inventivas, sustentadas pelo ótimo elenco e pela proposta coreográfica como um todo.


A associação e acúmulo desses diversos momentos, dentro de uma aura de videogame, bem preservada na estética geral que circunda a coreografia marcam o trabalho do coreógrafo, que sempre tem a tendência de se mostrar, através de seus trabalhos, também exímio diretor.


Um ponto de curiosidade é a intensa percepção de uma aura bem jovial, talvez até mais jovem do que de costume para o Mov_oLA, que nunca fui, no entanto, velho, mas aqui soa ainda mais novo. Algo que pode se explicar pelo percurso da obra, criada para a Divinadança, mas que, no momento da cena, para além da ótima realização interpretativa, deixa uma sugestão de outras companhias onde esse tipo de trabalho desse coreógrafo poderiam colher belos frutos.


Quanto ao título, a intrigante função sintática de “Predicativo do Sujeito”, um tanto de reflexão nos dá bons frutos. O predicativo é aquilo que qualifica um sujeito numa oração construída como um verbo de ligação, como o verbo “ser”, do qual fica a provocante dúvida, frente ao que nos é mostrado, do que é que são, ou que são percebidos como sendo, esses bailarinos-personagens, dentro dessa construção, que articula, a um passo, aquilo que somos, aquilo que mostramos ser, e aquilo pelo que somos percebidos.

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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

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