• Henrique Rochelle

Falar de si, do outro, para o outro

Atualizado: 27 de Set de 2018

Com a migração como ponto de partida, Joëlle Bouvier constrói para a SPCD uma reflexão coreográfica que ajuda a entender e permite questionar aspectos da nossa construção, de uma tônica insistente no mundo, e os processos como nós podemos ser vistos pelo outro.



Há algo de diferente quando vemos o outro falar sobre nós. Em parte, é isso que intriga na “Odisseia” que Joëlle Bouvier coreografou para a São Paulo Companhia de Dança, em co-produção com o Théâtre National de Chaillot, na França. Toda a construção da obra já afirma seu lugar de ter sido criada para a turnê internacional do ano que vem da companhia, e, com isso, passamos inevitavelmente por algumas questões.


Por exemplo, o quanto e o como é nela criada uma representação do Brasil, uma fala sobre o Brasil. O quanto o Brasil é um tópico, um topus, um lugar de fala sendo colocado em cena. Mais que isso, o como essa fala é construída; na voz — e no corpo — de quem ela se apresenta; e que olhar sobre o Brasil é esse, que recebe a chancela de uma companhia mantida pelo estado, numa obra com um propósito claro de se apresentar no exterior.


A obra anuncia mover-se a partir da questão dos imigrantes — tônica atual, e que será ainda mais pungente na passagem da companhia do lado de lá do atlântico, onde as dinâmicas provocadas pelo tamanho dos países, bem como a construção identitária dos estados nacionais, acentuam um tanto da oposição eu-outro, pertencente-estrangeiro, que, por vezes, pode se perder nos caminhos das dimensões continentais do Brasil.


Pode se perder, mas não se apaga. Por um lado, porque elas se refletem bastante nas migrações internas ao país, mas, também, pela histórica formação do povo brasileiro a partir de uma presença forte de ondas de imigração de força diversa, que esparramaram pelo território uma diversidade e variedade de falas, e costumes, e de maneiras — de ser, de pensar, de viver.


Nessa “Odisseia”, essas questões vêm carregadas à porta-bandeira, até literalmente, no uso cênico de tecidos e plásticos que imolam bandeiras, velas de barcos, e ilustram o vento e o mar pelo espaço do palco. Assim fazemos uma viagem, que se constrói correograficamente pela insistência nas corridas, no deslocamento, nas entradas e saídas, e, esteticamente, numa percepção marítima, esvoaçante.


Para enfrentar a intempérie da mudança, os bailarinos são trabalhados em agrupamentos massivos. Resistem como conjunto. Mas o grupo é simultaneamente uma estrutura de força e uma forma de apagamento do indivíduo. Esse contraste é algo difícil de se trabalhar, e, quando ilustrado por Bouvier numa insistência na figura romântica de um casal que vem e volta e ganha lugar na cena, dissipa seu poder.


Dissipa porque não da conta de ilustrar o espaço do indivíduo frente ao grupo — tarefa que seria complicada, mas que parece intimamente presa à proposta dessa obra, sem, de fato, conseguir alçar voo. O resultado diminui um pouco o efeito almejado. Parece fazê-lo deslizar para o gancho romântico de uma novela de época, trabalhando pelo ilustrativo — nos dá essa imagem do herói e da heroína, mas sem desenvolvê-la o suficiente para que nos importemos com essa jornada pessoal, porém destacando-a o suficiente para tirar a atenção do grupo.


Nesse sentido, o título — lindo — da obra, é questionável. A “Odisseia” é uma jornada de aventuras drásticas, de monstros aterrorizantes e de dramas intensos, que estão presentes no tema aqui proposta, mas que se percebem um pouco menos no trabalho apresentado, frente à leveza geral do conjunto da obra, e à fixação no gancho amoroso. O risco do casal é o risco das personagens. Essa não é a “Odisseia”, porque ela não é a jornada de um herói, não é a história de um Odisseu, não é o conto de um casal. Essa é a jornada de um povo, de vários povos, de muitas épocas. E sua força está no grupo. Ai, o todo fica mal resolvido. Se é pra ser sobre um casal, o casal não é importante o suficiente, mas se é pra ser sobre o conjunto, o casal é proeminente demais.


Esse desatino também se replica na trilha sonora, igualmente arriscada. Ela vem com a escolha da trabalhar a partir da obra de Vila Lobos, mas aproveita a inspiração do compositor brasileiro em Bach para encaixar a sua “Paixão Segundo São Mateus” na trilha, e alimentar-lhe uma bem-vinda variabilidade. Essa variabilidade é, inclusive, fundamental: as “Bachianas” são ótimas, mas a redução da seleção pelos trechos mais reconhecíveis delas é questionável, sugerindo uma falta de direção musical que poderia engrandecer a estrutura sonora.


Sem dúvidas, será interessante para o público estrangeiro, que talvez não tenha tanta familiaridade com esse repertório. Mas, aqui, soa um pouco fácil demais. São músicas que fazem parte de nosso imaginário, de nossa experiência artística, e, inclusive, do repertório recente da própria SPCD. Precisamos de mais uma coreografia com trecho da “Bachiana No 1”? De fato, diria que precisamos de várias — porque a música é boa, coreográfica e tem potencial para ser trabalhada e retrabalhada por diversos artistas, e diversas propostas. Mas precisamos disso novamente por essa companhia, e nesse momento? No todo, a seleção soa representativa do Brasil, porém representativa de um Brasil para ser visto por estrangeiros, e fora daqui, remetendo a algumas fantasias do nacional que já impregnaram a dança.


Esse é um risco de co-produções internacionais que se debruçam sobre esse tipo de temática, articulada diretamente com as raízes — distintas — dos lugares nela envolvidos: o de equilibrar o quanto da obra se faz para aqui — para a nossa companhia, o nosso público, os nossos artistas — e o quanto é feito para o outro lugar. Porém, o que há de positivo é que essa mesma dinâmica aciona o próprio tema da obra, discutindo o processo dos imigrantes de adotar uma nova pátria e o equilíbrio entre essa adoção e a preservação e mistura de uma cultura de origem.


É nesse sentido que está o sucesso da obra, que, não reste engano, foi muito bem recebida na temporada no Teatro Alfo e, suponho, será ainda mais fora daqui, por articular um tanto do que se espera do Brasil a partir de uma voz e de um estilo de uma coreógrafa de fora daqui, mas que vem executado pelos nossos bailarinos. Para aqueles que não estejam tão familiarizados com a companhia e seu repertório, um prato cheio.

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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

Os textos publicados anteriormente (2013 - 2017) no da Quarta Parede continuam disponíveis no domínio original

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