• Henrique Rochelle

Desvendar o nó no peito

A tarefa corajosa de enfrentar o desejo e falar dele, sem pudores ou vergonha, é trabalhada por Deborah Colker em ‘Nó’, remontada agora na Temporada de Dança do Teatro Alfa.



Eroticidade delicada é o que coloca em cena ‘Nó’, da Deborah Colker Cia de Dança. Da exploração de encaixes sexuais, de corpos e suas partes, vai se construindo, por uma matemática de gesto, uma obra que encontra prazer na organização, no sistema, no padrão.


Dominando a cena, um grande conjunto de cordas, inicialmente presas em um nó central, suspenso sobre o palco, esclarece a temática e o título — quase como uma árvore de feixes, que vai se multiplicar em uma floresta, quando, mais pra frente se soltarem os nós. Nesse ambiente de sonho, de além-do-humano e do cotidiano, Colker penetra no subconsciente, para olhar de frente as manifestações do desejo, de suas raízes mais imediatas a seus desdobramentos.


A obra guarda também uma importância de raiz nas matrizes do trabalho da coreógrafa: o desejo a perseguiria por anos depois de ‘Nó’, sendo o ponto de partida para mais tantas obras suas. Mas a primeira vez é algo que fica na memória, e que é por ela revivida e reconstruída. E esse é o processo da remontagem de 2018, que adapta sutilmente a coreografia, desenvolvendo aspectos da maturidade coreográfica de Colker, provada nacional e internacionalmente, e, principalmente, ovacionada por seu público, já cativo.


Ver essa obra depois de algo como o ‘Cão Sem Plumas’, do ano passado, é uma surpresa — mas uma surpresa bastante agradável. Recuperamos um momento de prazer, daqueles que terminam e querem ser repetidos — e que, vez ou outra, surpreendem e agradam ainda mais que a primeira vez.


A tensão erótica é inevitável. E nem sempre ela é só tensão, frequentemente aqui trabalhada em sexualidade, mais ou menos escancarada — como precisa ser para fazer sentido enquanto tema. Mais que o cenário entrelaçado, são os corpos dos bailarinos, que se entrelaçam como a trama de uma corda e se prendem como se estivessem amarrados, que vão completando essa percepção.


Uma referência a um balanço erótico, outra ao shibari — a técnica japonesa de uso de amarras para o prazer sexual — mas tudo dosado com a delicadeza do corpo técnico e da estrutura milimétrica. A fórmula explorada é química, em seu sentido mais estrito: trata do balancear de seus elementos, das dosagens exatas, com que a coreógrafa vai fazendo uma mistura — entre hormônio artificial e poção mágica — para replicar o desejo de todas as coisas e seus efeitos.


Entre o corpo-máquina e o corpo-carne, o desejo se constrói em referência poética e em amarras de técnica, na estrutura ensaiada à perfeição, como é de costume da companhia. Tudo se move por vontade e desejo, em expressão frequentemente aérea, acrobática, quase circense. Cativante, inegável, mas também eficiente. O efeito é o de um high hormonal. Da contração e da tensão que antevêem o relaxamento e o gozo.


‘Nó’ tem todas as marcas do gosto de Colker pelas poéticas de espetáculo grandioso, nas quais o corpo é protagonista de um emaranhado de elementos. Carnal e visual, passa da pele, para o lado de dentro, refazendo caminhos de sensação: os neurônios, as sinapses, o coração, o cérebro, a digestão. Como uma medula, o feixe de nervos transformado em floresta de cordas é o espaço em que ocorre a manipulação da vontade e do sentir.


Amarrando e contendo o corpo, a coreografia ganha domínio sobre o desejo; se deixando amarrar, ser puxada, içada, ela deixa espaço para ser desejada. Uma obra de confrontos e oposições, como as vontades e seus controles. Bege como a pele, preto como o desejo, vermelho como sangue — expressos também pelo figurino de Alexandre Herchcovitch.


Num piscar de olhos, a obra passa da orgia de cordas ao acalanto e o ninar lírico do encontro calmo, equilibrado no balanço dos corpos. Discute dentro e fora, conter, limitar, escapar, transbordar. Ao fundo, a canção nos explica: “Eu assim tão só, me entreguei sem pensar”.


É forte e ameaçadora porque nos coloca em cena como sujeitos de descontrole, e como dispostos a abrir mão do controle. Relaciona-se com o histórico da companhia porque lida com a dinâmica visual de ‘Casa’ e de ‘4x4’, mas antecipa ‘Cruel’, ‘Dínamo’ e até ‘Tatyana’. Afirma uma assinatura reconhecível, e um projeto estético de continuidade, em suas etapas nem sempre percebido e reconhecido pela crítica daqui, mas ao qual é necessário dar as devidas balizas de seu reconhecimento por outros tantos ângulos.


Falar de gente e para gente, de suas graças mas também de suas sombras, é técnica preciosa. De tradição literária e artística de múltiplas origens, aqui trabalhada em dança. Seu elementos são muitos. São como feixes de uma corda, são como cordas que se amarram, como a árvore da cena. São como o embate entre dentro e fora, entre razão e sentimento. A disputa é humana, sensorial, amarra a garganta, e dá um nó no peito. Desvendá-lo é tarefa corajosa e não seria para qualquer um.



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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

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