• Henrique Rochelle

Eu sou o que o outro não é

Singularidades, do Mercearia de Ideias é uma investigação sobre as imagens de si e do outro. Partindo de questionamentos pesados, os intérpretes são levados a nos contar não exatamente a sua história, mas a sua individualidade.



* escrito para o Criticatividade


Partir de perguntas como “Quem é você?” é quase um chavão da arte contemporânea — tão preocupada ela é com a individualidade, com os processos de diferenciação, com a ambição do ser único e singular (desejo que vem da perseguição pelo “Gênio”, idealizado no Romantismo). É a insistência desses questionamentos que provoca: são séculos de uma procura por si próprio, por formas de identificação e de auto-reconhecimento, de afirmação e de oposição.


Levado à cena pelo Núcleo Mercearia de Ideias, esse mesmo questionamento não trata de dar fim à pergunta com uma afirmação (seja ela temporária ou definitiva), mas de identificar as formas — variadas e por vezes inesperadas — como essa questão se responde.


Em “Singularidades”, que tem direção de Luiz Fernando Bongiovanni, é essa problemática que é abordada, num ponto de partida marcado pela dificuldade em se definir algo que se acredita indefinível. Parece complexo, e de fato é: uma aventura psicologizante, transformada em cena, pede difíceis níveis de articulação — precisamos identificar os sujeitos, mas também seus processos, e, sobretudo, seus resultados cênicos.


Nesse sentido, aquilo que tem melhor resolução cênica é a primeira cena, que coloca os bailarinos dançando em diálogo com focos de luz. Conforme eles se acendem e apagam, eles abrem espaço (real e metafórico) para os indivíduos e seus desenvolvimentos. A luz de Ligia Chaim é, inclusive, um dos pontos interessantes desse trabalho. Domando o espaço, ela trabalha a partir da poética de recortes, e nos oferece fisicamente um percurso para o espaço mental dos envolvidos na obra.


Nesse universo, os bailarinos falam de si, para responderem — de alguma forma — o questionamento proposto. Essa fala se dá por dois caminhos: o do movimento e o da oralidade. Quanto à oralidade, um primeiro problema, tradicional de montagens que mesclam discurso verbal à dança: nem todo bailarino é ator. Nem sempre os treinamentos necessários às duas atividades convergem. E ai aparece um tanto de fala desencaixada, desintencionada, que perde a força e diminui os entendimentos possíveis do trabalho.


Aqui, parece faltar no conjunto um tanto de organização. É curioso, nesse sentido, olhar a ficha técnica e ver que não há assinatura de Coreografia. Há Direção, mas a proposta de deixar cada um falar de si cria um resultado complexo, cujo conjunto nem sempre faz sentido.


Sim, precisa haver costura — e não num sentido linear e de padronização. Até porque a proposta é do tipo de uma colcha de retalhos. Mas ainda é preciso que o conjunto funcione: que a colcha se mantenha e se sustente, e sirva como colcha. Do contrário, encontramos algo que pende mais para um laboratório compartilhado, para um processo de criação, do que para um resultado pronto a ser recebido pelo público.


Nas passagens que apresentam um tanto mais dessa costura das partes vemos algumas das marcas do trabalho de Bongiovanni, e um pouco mais de sua assinatura. Nas demais, o que acontece? Chamar cada indivíduos ao questionamento proposto é encontrar respostas distintas, mas que também são de tipos distintos: essa não é uma pergunta apresentada com as alternativas para ser respondida; tampouco é uma pergunta que inclui a sua metodologia de resposta. O processo não é “diga quem é você usando 3 adjetivos” ou “diga quem é você se descrevendo fisicamente”. O processo é “quem é você?” e seu propósito são as distintas formas de se responder essa pergunta.


Esse interesse, transformado em cena de dança leva a outros dois questionamentos: todo mundo tem algo a dizer?; e, caso positivo, — ainda mais importante — é essa uma mensagem cênica?


Essa pergunta é fundamental porque ela antecede essa obra, sua abordagem e seu tema. E, no entanto, nas sequências de solos de investigação pessoal, ela arrisca se diluir. Em algumas dessas cenas, os bailarinos conseguem nos dizer — e até muito bem — um pouco do “como eu danço”, mas não necessariamente do “como é a minha dança”: porque a ideia de “minha dança”, de uma dança pessoal, requer matéria densa, trabalhada pelo tempo e pela prática contínua, de uma vida. Não é algo que vem (só) da genialidade, nem (só) da psicologia, mas (sobretudo) do trabalho.


Alguns artistas conjugam esses aspectos. É o caso de Bongiovanni. É o que nos faz ver em seus trabalhos a sua assinatura, a sua característica pessoal, a sua singularidade — construída por um conjunto de referências e experiências e por uma ampla carreira. Nas sequências de solos, corremos o risco de ler singularidade como sinônimo de parcialidade. Porém, o inteiro também pode ser singular — e até mais fascinante. Mas essa é uma obra de ansiedade, de medo. E a ansiedade esfacela a integralidade.


Vemos, então, vários retalhos, com graus diversos de costura. Incômoda proposta — uma obra em processo, e que questiona seu processo —, mas por isso fiel a um outro lado de seu tema. O momento atual nos permite traçar várias outras associações ao nervoso da ideia de “ser inteiro”, de “ser um só”, de “ser você mesmo”, e, sobretudo, do “poder ser você mesmo”. E nesse sentido, projeto e proposta da obra casam.


É necessário, no entanto, um tanto de esforço para que o público seja levado, e queira ser levado, por essa proposta — como é o caso de todas as propostas calcadas em incômodos e provocação. A tarefa é trabalhosa, arriscada, e daquelas que talvez se realize uma ou outra noite, ou em uma ou outra cena.


Sob o risco de não vermos em cena diversos inteiros, apenas múltiplos protótipos; e de duvidarmos daquilo que eles têm a nos dizer, “Singularidades” apoia sua forma na variedade de respostas que o questionamento proposto lhe dá. Sua conclusão, talvez não intencional, é o contraste de partes que não se juntaram: eu sou o que o outro não é; entre o delírio romântico e o desespero psicanalítico.

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