• Henrique Rochelle

Mais uma revolução

Amor Mundi, da Cia Fragmento, assume a violência dos processos de mudança, com um tom de esperança na possibilidade da humanidade ainda ser capaz de cuidar do mundo.



O amor pelo mundo — o desejo que ele continue, e o papel da humanidade nesse processo — é o foco do conceito da filósofa Hanna Arendt que nomeia a estreia da Cia Fragmento de Dança: Amor Mundi.


Quase pronta, a obra foi interrompida pelas condições do isolamento social da pandemia, e agora retomada e transformada em video, que estreiou num formato episódico, dividindo a obra em 3 momentos, apresentados um a cada final de semana.


O formato dialoga com o trabalho anterior da Fragmento, À la Carte, que também articula cenas pontuais, e as apresenta separadamente, compondo um menu. Aqui, no entanto, a refeição já vem montada, e não determinamos seus caminhos.


O contraste ajuda na construção proposta: em Amor Mundi, a reflexão sobre poder de escolha, poder de ação, e seus efeitos, é intensa — o que é a humanidade, no mundo, e o que faz a humanidade, com o mundo.


O tom geral é tenebroso, e a primeira das cenas, o prólogo, parece que já começa com o fim, com o elenco no chão, e uma criatura que dança, com um tanto de calma e reverência, se aproximando do chão e dos corpos, num ritual que os desperta.


No video, o procedimento mais notável é a sobreposição de imagens, que cria colagens quase espectrais, acumulando ângulos e momentos da cena, e projeções externas que nos mostram o caos e os perigos do mundo, e a aparente calma do universo, onde vemos estrelas, planetas, e um movimento constante, eterno, inabalável.


Esse movimento, e sua razão, repercutem na segunda cena, em que os bailarinos passam a trabalhar o cenário como essa organização orbital. Pendurados por cordas, recipientes que no prólogo borbulhavam, agora estão apaziguados e azuis. Parece um laboratório, mas os instrumentos servem para os bailarinos se pendurarem e girarem.

Os recipientes giram em torno dos corpos, que também giram em seus próprios eixos. São os astros e seus satélites, em rotação e translação. O pêndulo é satélite do corpo, e um corpo é satélite do outro.


O giro se magnifica, toma o grupo, unifica seus sentidos, prende como numa corrente, e eventualmente os arremessa ao chão: um sistema pode ser coeso e ainda sim ameaçador, violento, brutal.


Essa ameaça é explorada no trabalho, sobretudo pela câmera, que altera visões um pouco mais distanciadas, com aspecto de neutras, e outras próximas, numa visão em primeira pessoa que dá detalhes, mas também cega para o todo.


Ali, perdemos um tanto dos bons desenhos de conjunto do trabalho coreográfico da diretora da cia, Vanessa Macedo. Mas se eles fazem falta, também chamam à atenção um outro aspecto importante: nem sempre nos damos conta, ou temos o distanciamento necessário para perceber a totalidade dos macro-sistemas que nos regem.


Na terceira cena, se repetem os princípios da rotação e da translação de corpos e pêndulos, mas eles vêm num sentido inverso: aqui a construção é inteira anti-horária. Estamos voltando no tempo? Retraçando passos? O que seria retroceder agora, neste momento da história?

Entre giros, o trabalho reformula o sentido da revolução: não necessariamente a quebra, mas também a volta. E o mundo gira. De novo, e de novo. Outra, e mais uma revolução.


A trilha sonora cresce, finalmente ganha interesse, os corpos respondem, e se projetam em pequenos arremessos. Escapam de seus ciclos: damos saltos para lugares que talvez sejam os mesmos, mas não estamos caídos.


Satélites viram o jogo, pêndulos são arremessados e se partem, com os recipientes quebrando. Resta uma fumaça azulada, que cobre os corpos arfantes, enquanto a galáxia super-projetada vira a imagem de um parto, para encerrar a obra com alguma esperança.

Não é um plano de ação, não é uma proposta. Mas é um respiro. Uma chance de que na próxima revolução, as coisas sejam diferentes. E é algo que satisfaz o pensamento nesse momento que passamos.


Afastada da presença do público, a obra trabalha limitações como potência. O trabalho se assume neste momento, neste formato. Em si. E esse é seu ponto forte. Não é uma versão em video de alguma coisa que não pode ser. Ele é o que foi feito a partir de uma nova revolução, com mudanças brutais. É até difícil imaginá-lo em outro formato.


De repente o mundo gira e é tudo diferente. De repente ele gira outra vez, e é tudo igual, mas nada é parecido. E ele continua girando, enquanto procuramos as nossas formas de demonstrar o cuidado e o amor necessários pra que a próxima revolução ainda inclua a humanidade.



AMOR MUNDI, da Cia Fragmento de Dança

Coreografia e Direção: Vanessa Macedo

Intérpretes: Diego Hazan, Letícia Mantovani, Maitê Molnar, Thainá Souza, Vanessa Macedo e Vinicius Francês 

Iluminação e edição de vídeo: André Prado

Concepção de vídeo projeção: Bianca Turner

Captação de imagem: Vic Von Poser 

Assistente de captação de imagem: Alexandre Szolnoky

Composição, síntese sonora, gravação e mixagem: Ricardo Pesce

Participação especial Didgeridoo: Paulo Jesus

Figurino: Daíse Neves

Assistente de figurino: Pablo Azevedo

Consultoria para cenário: Rogério Marcondes

Mediador bate-papo on-line: Roberto Alencar

Professoras convidadas preparação corporal: Luiza Banov (gyrokinesis) e Paola Hirga (pilates)

Professoras convidadas Seminários Amor Mundi: Crislei de Oliveira Araujo, Laura Mascaro e Suzi Piza

Design gráfico: Letícia Mantovani

Fotos: Alex Merino

Assessoria de imprensa: Elaine Calux

Produção Executiva: AnaCris Medina

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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

Os textos publicados anteriormente (2013 - 2017) no da Quarta Parede continuam disponíveis no domínio original

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