• Henrique Rochelle

Direção Artística em companhias longevas

De Wuppertal a Paris, algumas das dificuldades de continuar na direção de companhias de grande tradição.



Com pouco mais de um ano no cargo, Adolphe Binder foi removida da função de diretora da Tanztheater Wuppertal, companhia de Pina Bausch, que volta ao Brasil no fim do ano para temporada no Teatro Alfa. A decisão foi tomada na última sexta feira pelo conselho da companhia, que, em declaração, manifestou a necessidade dessa decisão para que a companhia “pudesse voltar a operar em plena capacidade”.


Binder é a responsável pela atual temporada do grupo, que pela primeira vez em 45 anos inclui criações de outros coreógrafos. Ambas as produções, de Dimitris Papaioannou e Alan Lucien Oyen têm sido bem recebidas pelo público e pela crítica, mas o estigma de trazer novos artistas para uma companhia de autor é grande: já em 2010, um ano após a morte da coreógrafa, muitos se questionavam sobre quem poderia dar continuidade aos trabalhos do grupo, depois de um nome tão marcante. E ainda assim, alguém precisa fazê-lo, se essa companhia não for se tornar um museu.



É complexo organizar a dinâmica entre o autoral e um repertório de criadores múltiplos, e diversas outras companhias têm encontrado o mesmo problema, depois da morte de seus diretores/coreógrafos-residentes. A situação oposta também aparece, por exemplo quando coreógrafos mais interessados numa assinatura pessoal assumem a direção artística de companhias de repertório. Foi o caso de Benjamin Millepied à frente do Ballet da Ópera de Paris.


Em 2014 Millepied deixou sua companhia em Los Angeles para assumir a mais tradicional das companhias francesas. Em 18 meses, pediu demissão, declarando ser o homem errado para o trabalho. Suas muitas propostas de inovação nem sempre encontraram boa recepção dentro de uma instituição tão conservadora, mas o que mais marcou sua direção foi o esforço contínuo para deixar seu nome na programação do grupo.


Ele já havia criado três vezes para a companhia quando assumiu sua direção (2006, 2008, 2014), mas voltou outras quatro vezes aos programas de três temporadas como coreógrafo, arriscando o tom de coreógrafo-residente — função que não lhe foi atribuída, nem requisitada — além de uma inflação de seu nome como coreógrafo através da companhia que dirigia.


As exigências do trabalho são complexas. De um lado, em Wuppertal, é preciso continuar sem Pina a companhia de Pina. Do outro lado, em Paris, é preciso manter o prestígio do Ballet da Ópera, mas sem ceder à tentação de entender essa companhia como sua.


O risco que ressalta dessas rápidas gestões é o de sempre: que as direções encurtadas não permitam que bons projetos amadureçam, e companhias de prestígio percam um tanto do fôlego, entre trocas e inconstância. Porém, igualmente problemático seria o risco de alongar uma direção que não funciona para os objetivos do grupo. De todos os lados, ressalta-se a questão: quem determina os objetivos de uma Companhia?


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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

Os textos publicados anteriormente (2013 - 2017) no da Quarta Parede continuam disponíveis no domínio original

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