• Henrique Rochelle

Um percurso pandêmico

Variações em Prece da Cisne Negro Cia de Dança traz cinco obras do repertório do grupo para traçar um caminho de sensações da pandemia.


Com Variações em Prece, a Cisne Negro é a primeira companhia a embarcar na nossa (ainda incerta) jornada de reabertura de teatros, durante a pandemia. Em formato misto, com plateia presencial reduzida no Teatro J. Safra, e transmissão ao vivo, o programa inclui cinco trabalhos do repertório da companhia, agora lidas num novo conjunto, proposto como homenagem àqueles mais afetados pelo momento.


Estar na plateia ou assistir de casa são experiências completamente distintas. Como primeira obra desse formato misto, Variações cria a proposta de um mestre de cerimônia para apresentar e organizar a noite. O convidado, o ator Maurício Machado, apresenta a ficha técnica básica das obras, misturada a textos de Cássio Zanatta.

Se o dar o nome e as indicações é de fato fundamental, especialmente nesse contexto, o ritmo esquisito da leitura na apresentação permanece um risco. Por outro lado, os textos ajudam na construção da proposta de um programa de fato, afastando a leitura da obra como apenas um agrupamento de peças.


Prece (1988), de Janet Smith, propõe um diálogo direto com seu tema: nesse solo feminino, são os movimentos alongados das extremidades do corpo que evidenciam uma bailarina que se estica, tentando alcançar alguma coisa que não se toca, e que não se apresenta no palco, para além da iluminação. A cena é curta, e, ainda que seja apresentada como uma oração final, aqui, abrindo o programa, ela insiste em parecer um pedido, um trabalho sobre esperança e expectativa.


Cálice, encomenda coreografada em 2019 por Dany Bittencourt, tem um pano de fundo da própria trilha para tratar de censura, que na movimentação do duo se traduz como uma dinâmica de embate e co-existência. Os bailarinos se penduram, sustentam, desapontam e deixam cair, com um tanto de violência intencional e bem trabalhada, mas que mostra a dificuldade eterna desse tipo de abordagem interpretativa — de dançar junto para mostrar que esse junto é algo evitado.


Ficam duas mensagens, distintas e complementares, uma dialogando mais diretamente com a ideia de censura e intervenção da comunicação, que também assombra esse momento, e outra, mais indireta em tema, porém mais evidente na dança, sobre risco, ameaça, co-dependência e frustração — que também não são temas que escapem à nossa circunstância.


Cantata da Meia Noite (1989) de Gigi Caciuleanu, traz uma trilha sonora de Vivaldi com um tom sacro, magnificado pela presença de dois candelabros ao fundo do palco. De trás deles vem uma figura que faz uma coreografia teatralizada que desenha caminhos, percursos pelo palco, repletos de gestos que parecem direções, indicações. É um mapa corporalizado, mas sua mensagem é incerta.


A confusão da tradução ajuda na proposta de uma dualidade entre o celestial da trilha sonora e a característica terrena da coreografia, numa das melhores realizações de interpretação da noite. Nessa dinâmica, constrói-se o espaço do religioso: o meio de campo entre a terra e o divino, e a dificuldade de seu entendimento. O tema faz um paralelo com Prece, mas seus resultados são bem distintos. Prece faz um pedido, enquanto Cantata parece trazer uma resposta, ainda que não sejamos capazes de compreendê-la ao certo.


Talvez essa resposta seja o que vemos em Shogun (1990), de Ivonice Satie. Shogun é uma obra de ação. Dois bailarinos lidam com uma dinâmica que parece que lhes apresenta um plano: esta é a realidade, o que sou capaz de fazer com ela? Como agir, a partir dela?


Shogun é trabalhosa e cruel com a sintonia, e por isso, nesse momento (de mais distanciamento e de menos convívio), mais difícil de ficar perfeita. Porém, mais arriscada ainda seria a perda ou a diminuição da energia dos intérpretes — que não acontece —, e é responsável por criar uma dinâmica de cerimônia, às vezes de batalha, ou mesmo sacrificial.


Depois de um intervalo, o programa se encerra com sua única obra de duração média, Enigmas (2017), também de Bittencourt. As Enigma Variations, de Edward Elgar, que compõem a trilha sonora dessa coreografia são uma proposta de apresentação de um tema e 14 variações, retratando 13 amigos e o próprio compositor, através da tomada de um traço de personalidade que Elgar usa para variar seu tema.

Em 1968, o coreógrafo Frederick Ashton fez uma versão para as variações, e um tanto de su estrutura — especialmente cênica e teatral — também aparecem aqui. Coreograficamente, menos. A obra é a de menos interesse do programa, e talvez seja porque a sua proposta é complicada (retratar esses 14 indivíduos), e, no limite, impossível (temos um elenco de 10 bailarinos, quase sempre em cena).


A edição da trilha sonora, com alguns cortes e alterações de volume brutas entre as variações também não ajuda a ambientação. O mesmo acontece no uso de recursos como os figurinos chamativos, e os elementos de cena, como folhas de partitura que chovem sobre os bailarinos ao final, e instrumentos musicais estranhamente dançados pelos bailarinos. A maior dificuldade é com o entendimento geral, que parece pontuar não um salão de amizade, mas um acúmulo de relações amorosas e traições confusas.

Se a obra em si carece um tanto de resolução, seu lugar ajuda a ser encontrado aqui, dentro desse programa. Enigma abre o espaço para falar daquilo de que gostamos e sentimos falta nesses tempos de distanciamento: o estar juntos, o estar entre aqueles que queremos bem.

Nesse contexto, dentro do todo proposto, há um tanto maior de entendimento que ultrapassa as questões de cada obra, e insiste no pensamento do conjunto: Prece mostra a esperança que podemos ter; Cálice reflete sobre o problema, sobre o risco e a ameaça da situação; Cantata propõe um caminho, a ideia de se guiar por alguma coisa; Shogun faz a ponte sobre o esforço, a dificuldade, o sacrifício; e Enigmas mostra o desejo: a vontade de estar junto e entre amigos.


É um percurso pandêmico, mas é um caminho, e ajuda a sugerir algumas soluções para os enfrentamentos da arte de hoje, refletindo sobre seu contexto, mas sem se limitar a ele, enquanto vai buscando formas de se reencontrar com seu público.

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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

Os textos publicados anteriormente (2013 - 2017) no da Quarta Parede continuam disponíveis no domínio original

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