• Henrique Rochelle

Em casa, em cena, em transe

Refletindo sobre o momento atual (do mundo e também da companhia), o BCSP explora incômodos e escapes, em criações de Clébio Oliveira e Marisa Bucoff.



Quando 2020 começou, a gente já se perguntava por onde andava o Balé da Cidade de São Paulo, que teve um 2019 fraco. Com a pandemia e uma sequência de questões administrativas em 2020, é muito feliz poder voltar ao Theatro Municipal para ver a nossa companhia, em casa, e bem.


O 2021 do BCSP abre com um programa inusitado. Estamos em situação de exceção: sem direção artística (desde a demissão de Ismael Ivo em novembro, só agora a companhia está em meio a um processo de seleção da nova direção), e dentro de uma gestão emergencial da casa (após a finalização antecipada do contrato do Instituto Odeon, e a suspensão do edital de seleção da OS gestora, a Santa Marcelina Cultura assumiu um contrato emergencial).


Nesse contexto, o programa duplo traz dois coreógrafos convidados por um comitê composto de bailarinos e técnicos, que coordenou as decisões colaborativas das montagens. Marisa Bucoff, bailarina há 21 anos no BCSP assina A Casa, enquanto Clébio Oliveira finalmente colabora com a companhia, em seu Transe.


Já havíamos visto o trabalho de Bucoff com o elenco que integra em obras experimentais, de workshops da cia, e como parte de todos maiores. Aqui, sozinha, ela parte da discussão da casa, tema que domina a nossa percepção quarentenada do momento atual. A partir de espaços e imagens da casa, ela cria cenas quase que independentes, unidas, sobretudo, por uma cenografia excessiva.

É surpreendente que a divulgação e apresentação da obra insistiam em defender uma atmosfera clean, minimalista, sem cenário. De fato não há um pano no fundo — nem pernas nas coxias, nem nada da estrutura do teatro, que usa o palco aberto como uma estratégias de segurança pandêmica. O que de fato temos em cena são diversas cadeiras, uma escada com rodas, mesa, sofás e biombos, que vão sendo puxados para as cenas.


Os efeitos visuais são interessantes, mas são muitos. Ficamos naquele mesmo domínio dos trabalhos do último diretor do grupo, apegados ao impacto visual de estruturas cênicas, que arriscam até distrair do que a obra tem de melhor. E nesse caso, o que temos de melhor é a movimentação.


A prática de Bucoff em dança orienta trabalhos de boa pesquisa corporal, que mostram a reação dos corpos do elenco a diversos estímulos. Eles deslizam e escorregam por cadeiras, buscam o toque que não chega, e criam um duo com um casal que parece discutir seu relacionamento, com a sobreposição da movimentação lânguida e alongada de bons momentos, com pequenas torções e flexões que deflagram os argumentos e discordância da conversa.


É uma das cenas que vai valer a pena rever em outros contextos, recortada. Seu destaque é sobretudo efeito da forma como lida com os enfeites cênicos, quase que deixando-os de lado. Aqui, vemos um casal, não vemos a mesa e as cadeiras. Elas estão lá e fazem parte da obra, mas servem para impulsionar o melhor da movimentação proposta, não pra distrair.


Outras ambientações funcionam mais a favor da obra, como a cinematográfica trilha sonora de Ed Cortês, que dá um tom melancólico, mas não triste ao trabalho. Entre os figurinos de João Pimenta, há alguns que funcionam notavelmente bem com as cenas, e outros que só recobrem o corpo de preto, dando unidade, mas pouca personalidade em palco: são peças bonitas de se ver de perto e em detalhe. Mas da quinta fileira da plateia do municipal a gente já perde esses detalhes…


A luz de Mirella Brandi recorta o espaço da cena e cria um tanto de movimento, dialogando um pouco melhor com os objetos do cenário, conseguindo diminuir a percepção deles. Figurinista e iluminadora se repetem nas duas criações, e aumentam a percepção de repetições e tendências.


Algumas dessas repetições talvez sejam mesmo efeitos do momento do mundo: sóbrio, soturno, quase cabisbaixo — que acaba transparecendo no programa como um todo. Se A Casa pega todos os nossos incômodos de quarentena como material cênico, Transe faz um caminho diferente, pensando no utópico — mas a partir de um diálogo entre o juntos e o sozinhos.


Pensando num mundo utópico pós-epidêmico, o coreógrafo Clébio Oliveira propõe uma obra de imaginação meditativa: parece que vamos vibrar juntos para sonhar a utopia. O trabalho segue essa estrutura de alcançar um estado de iluminação. A trilha sonora de Matresanch ocupa o vazio do espaço escuro, que é preenchido por figuras isoladas e animalescas.



No transe, o homem se torna bicho, e parece que comunga com a natureza, com o espaço, com a luz. O elenco, inicialmente em solos, vai aos poucos se aglomerar, para se tornar uma unidade, transcendente, coletiva, vibrando na mesma onda.


Criar esse paralelo entre ser indivíduo e ser grupo é tarefa pesada. E o formato da obra, e sua duração, criam um desafio para a plateia. O estado intermediário do transe — essa situação nem do lado de lá nem do lado de cá da consciência — é algo complexo. Precisa de disponibilidade da plateia, aceitar fazer parte do processo, se deixar transportar.


Com um pouco de esforço, a plateia pode, então, experimentar o transe, e alcançar um outro estado, de gozo e alívio, que é o elemento mais forte e importante da obra, bem resumido na sua última cena.


Aqui, vemos claramente a oposição indivíduo-grupo, em um paralelo sutil e bem cabido do nosso atual (e já prolongado) estado de quarentena: estamos vivendo nesse processo, nesse meio termo, nesse estado quase letárgico e cheio de potência de transe. Mas a vontade, que se realiza catarticamente no palco, é arrancar a máscara, gritar, transformar o tudo escuro em luz, em brilho, e dançar.


Transe entrega tudo isso, se você entregar o esforço. É refletir sobre o escuro e sobre o sozinho, como um caminho para algo melhor, iluminado, coletivo, inacreditável, libertador, utópico. É um trabalho, para público e para o elenco. Mas, por alguns dias, ali em cena eles puderam fazer a nossa utopia.


Um bonito resultado de uma parceria que demorou demais para acontecer. Oliveira tem a cara do Balé da Cidade. Aguardamos por muito tempo a concretização dessa primeira obra, e esperamos que venham próximas. E que a companhia, ao finalmente escapar de seu letárgico estado atual, entre num transe bom.

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