• Henrique Rochelle

Amarrar o corpo como plano de ação

Marta Soares reconstrói os princípios de uma série fotográfica, enquanto se amarra em cena de “Bondages”, convidando o público à observação ativa


O corpo nu enquanto plano de ação é o pretexto de “Bondages”, obra em que Marta Soares parte de uma série fotográfica de Hans Bellmer dos anos 1950, para proceder a uma sequência de amarrações de seu próprio corpo, exposto sobre uma mesa, e registrado, tal qual a fotografia, por instantes de iluminação.


Com a mesa em cena, entramos no âmbito de mais uma platform piece que remete a “Vestígios”, obra de 2010 da performer, mas sem o espetacular que preenche aquela. Aqui, assim como o corpo, a cena é nua e silenciosa, e seu procedimento é simples: um contínuo amarrar, registrar, desamarrar, e amarrar novamente, que vai moldando o próprio corpo, apresentado como se fosse escultura, como se fosse peça de museu, disponível à observação.


Ensaio plástico sobre as articulações e as dobras

No todo, trata-se de um ensaio plástico: a(s) forma(s) do corpo são exploradas pelo ato de dar forma(s) ao corpo. O fio de nylon usado cria novas dobras, novos vincos, para além daqueles que são naturais dos músculos e das articulações. Valorizam-se os contornos, numa estrutura em que não há acúmulos — os elementos são pouco reutilizados, e constantemente refeitos em novas estruturas, ainda que dentro de um aspecto contínuo e cíclico, favorecido pela brilhante iluminação de Aline Santini, que faz passar o tempo da obra como se fosse uma expansão do tempo do mundo, num contínuo crescimento e diminuição da luz principal, pautado por rápidos flashes de luz frontal, que congelam o corpo da intérprete no tempo, e o gravam na retina, como se fossem fotografia.


aspecto contínuo e cíclico, favorecido pela brilhante iluminação de Aline Santini, que faz passar o tempo da obra como se fosse uma expansão do tempo do mundo

Há algo de muito específico nas performances de Marta Soares, que atrai quem se interessa por dança. Mesmo em uma proposta tão simples e despida como essa, o seu trabalho constantemente lida com as estruturas que organizam e possibilitam a existência da dança. Tempo, espaço, peso, fluxo e corpo se desconstroem e subvertem em seus trabalhos.



Restam limites, que ecoam velhas perguntas — de que precisamos para que se faça um espetáculo? Sua resposta parece se apoiar na espetacularidade inerente e inevitável da presença, mas lidando com ela de maneira bem mais interessante e inteligente que outros tantos artistas da performance: Soares não se faz objeto de observação, mas ponto de reflexão.


Para além do gosto pela performance

Desgostar de performance é algo até fácil: frequentemente, os performers parecem não se preocupar com o público, valorizando estéticas solipsistas em que aquilo que faz arte é o egoico “ser visto”. Porém, de forma muito sagaz, nos trabalhos de Marta Soares essa dinâmica é frequentemente invertida, e aquilo que faz arte é o “ver”.


Da mesma forma que o outro tipo de performance, este também demanda atenção e disponibilidade, esforço, paciência e reflexão de seu público. Mas ganhamos muito mais com estes trabalhos, porque mais do que um modus operandi, a observação ativa se torna uma verdadeira razão estética, e sua realização não se limita a nos dizer “eu mereço ser olhada”, mas aponta para aquilo que, às vezes de tão presente, pode nos passar despercebido. Assim, assistir a seus trabalhos é um constante processo de descoberta.


assistir a seus trabalhos é um constante processo de descoberta

fotos: João Caldas


(publicado originalmente em: https://daquartaparede.wordpress.com/2017/12/19/bondages-marta-soares/)

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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

Os textos publicados anteriormente (2013 - 2017) no da Quarta Parede continuam disponíveis no domínio original

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