Stagium de casa nova

8 de agosto de 2021

Quais são os espaços históricos da dança?

Como os conquistamos, como eles são perdidos?

Quando eu ouvi que o Ballet Stagium estava mudando de casa, eu quis saber um pouco mais. Eles estão abrigados numa sala da Oficina Cultural Oswald de Andrade, muito bem acolhidos, e finalizando a obra que estreia nos próximos dias. Mas quando uma companhia sai da sede que ocupou por 46 anos, a gente fica intrigado.

 

O Stagium, fundado em 1971 e prestes a comemorar seus 50 anos, surgiu na Rua Sarandi, no espaço onde Marika Gidali tinha, desde 1964, uma escola de dança. Décio Otero tinha voltado da Europa, e juntos imaginaram a companhia, que inauguraria um modelo de gestão e manutenção, defendido e elogiado desde a época por sua originalidade e relativa independência: ele não era mantido apenas por verba pública.

 

Depois de quase 4 anos de trabalho na Sarandi, Marika e Décio viram uma placa de uma sala para alugar. Foi lá, na Rua Augusta, que ficou a sede do Stagium, de 1974 até uns dias atrás. Ali a companhia passou de 9 para 28 bailarinos. Ali foram feitas obras que marcaram a nossa história. Quebradas do Mundaréu, Kuarup, Coisas do Brasil, Missa dos Quilombos, Anjos da Praça, Batucada… Ali começou a nascer Fluorescência, finalizada já na casa nova, para estrear na próxima semana.

 

Entrar naquele prédio da Augusta era um evento. Passando o portão, um corredor com as paredes vermelhas tomado de cartazes contava histórias. A primeira vez que eu entrei ali, eu me desviei, e fiquei olhando as paredes assombrado até uma voz chamar meu nome de cima da escada.

 

São quatro lances de escada até a sala, o que já era há algum tempo um desafio para os fundadores, que ali se mantinham porque, afinal, o espaço acabou se tornando um patrimônio da nossa dança. E como patrimônio deveria ser tratado. Mas a próxima geração não vai se perder nessas paredes. Com a companhia financeiramente desestabilizada pela pandemia desde o ano passado, o proprietário pediu de volta o imóvel e o Stagium ficou sem casa. Uma mobilização foi necessária, com apoios diversos, para articular essa abertura de espaço, e organizar uma mudança.

 

Na sede da Augusta, a companhia guardava acervo de poucas obras. Tudo agora em contêineres, aguardando destino. Uma parte maior do acervo foi perdida quando os fundadores venderam um sítio, onde os materiais ficavam guardados. A venda em si é um problema mal resolvido, mas a questão maior foi a perda dos materiais, incluindo exposições históricas prontas.

 

Não é novidade que a gente lida muito mal com a memória da nossa dança. Também não é surpresa que os custos para lidar com isso tudo são altos, e frequentemente impraticáveis. Com o tamanho e o tempo dessa companhia, existe uma impressão, um tanto desajustada, que aqui já estaria tudo resolvido. Quando se fala de 50 anos de trabalho contínuo, não é raro ouvir percepções atravessadas, como se a companhia estivesse garantida. Como se não dependesse, como tantos outros grupos, de editais, parcerias, contatos e contratos.

 

Nada é garantido. O Stagium continua de insistência e de resistência. O que alguns críticos chamaram, quando a companhia comemorava seus primeiros 5 anos, de invenção de uma dança profissional independente no Brasil, às vésperas dos seus 50 anos é a invenção da continuidade. Uma experiência única na nossa dança, florescendo em mais obras do que a maioria saberia contar. E que continua, nesse momento, em casa nova.

 

Continuar produzindo é ótimo. Estar em casa nova, e numa casa boa como a Oswald, é ótimo. Mas o desaparecimento, tão rápido, de um espaço histórico da nossa dança é terrível. E não só para o Stagium, mas para nós. Dá pra contar nos dedos que outros lugares tem quatro, cinco décadas de ocupação pela dança. E sempre que um desses lugares desaparece, a gente perde um pouco da nossa memória. Mas eles continuam dançando, então gente se agarra na dança pra lembrar.

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foto:  Arnaldo J. G. Torres

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