Quanto tempo dura uma ideia?

5 de novembro de 2020

Às vezes, uma ideia não tem tempo de se completar em cena. Outras vezes, tem uma hora de dança pra uma ideia de dez minutos.

Você já assistiu a alguma coisa e ficou pensando que a ideia era boa, mas o resultado era longo demais? Pois então. Não é raro a gente ver uma ideia que tá tão trabalhada, ou tão enrolada, que o ponto dela nunca chega, ou fica completamente dissolvido.

 

Eu sempre penso nisso a partir de um ponto de vista de economia comunicativa. O princípio é simples: você não escreve um livro de trezentas páginas pra avisar a sua mãe que vai viajar. Você não grava 15 minutos de áudio pra dizer que aceita um convite.  Comunicação dá trabalho, e leva um tanto de tempo, mas quando passa do necessário, é esforço à toa.

 

Uma coisa parecida acontece com a transformação das ideias em obras, mas com uma diferença clara: o propósito artístico raramente é dar uma informação. Uma obra sobre a chuva não serve pra te dizer “está chovendo”. Uma obra sobre insônia não serve pra te dizer que o coreógrafo não dormiu na noite passada. 

 

A materialidade daquilo que as obras nos transmitem é bem mais delicada e menos objetiva, então essa noção de economia comunicativa não se aplica a partir de uma perspectiva de eficiência — não é uma questão de transmitir uma mensagem com o menor esforço possível.

 

Ainda assim, tem vezes em que não dá pra evitar o incômodo, e ficar com aquela sensação pesada de que assistimos uma hora (e meia) de uma ideia que não segura nem dez minutos.

 

Interesse é uma coisa complicada e de muitas variações — aquilo que prende a atenção de um pode deixar outro completamente desinteressado — o que abre espaço pra variações pessoais muito intensas.

 

Mas é inevitável que o tempo faz parte da nossa experiência das obras. Desde a questão prática de quanto tempo cada um tem disponível para assistir algo, até detalhes (nesse momento ainda mais relevantes) como a duração do nosso limiar de atenção.

 

Se uma ideia sofre quando ela não é suficientemente desenvolvida, ela também perde muito por ser excessivamente trabalhada, e mais ainda por aparecer dissolvida. Aquela sensação de “Uhum. Tá. Eu já entendi. Que mais?” é um sinal claro pro público de que a obra já te ocupou mais tempo do que vale a proposta dela.

 

Mesmo quando ela tem algo a dizer, e mesmo que esse algo seja de extrema relevância, fica uma questão a ser respondida por todo o processo criativo e construtivo do trabalho: quanto tempo dura essa ideia? Quanto tempo ela precisa pra se fazer entender?

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Todos os textos do da Quarta Parede são escritos por Henrique Rochelle

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