Uma caixa no fundo do armário

2 de maio de 2021

Sem conseguir guardar a dança, guardamos as suas memórias. Mas onde?

No canto de alguma gaveta em casa, em alguma caixa guardada no fundo do armário, tem um pedaço de memória de dança. A gente coleciona, guarda, preserva, ou simplesmente não consegue jogar fora: aquela foto, aquele programa, aquele video, aquele recorte de jornal — não porque eles guardem a dança, mas porque eles lembram dela.

 

A dança tem problemas com o arquivo e o arquivamento. E toda a defesa, quase propaganda, da “dança arte efêmera” não ajuda. Se ela não se guarda, ela ainda continua, ela permanece — nos corpos de quem dança, nos corpos de quem assiste. Resta como impressões, como potência, como lembrança: não exatamente a dança, mas um caminho, um acesso a ela.

 

Sem conseguir guardar a própria dança, guardamos as suas memórias. Mas uma caixa de sapato no fundo do meu armário mal serve pra mim. Como ela pode servir para o outro, para o público, para a dança?

 

De verdade, de verdade, não serve muito. Mas qual seria a alternativa? Onde, além dessa caixa, esses materiais poderiam ser guardados, tratados, e disponibilizados para o público? Quem é que vai providenciar a estrutura e o trabalho necessários para o arquivo da dança ter sentido?

 

A arte tem uma função pública, uma realização pública, um princípio de público, de acessível, de ser encontrável. Onde estão os espaços que dêem conta da memória da dança?

 

Dentro da gaveta, essas memórias ficam quase sequestradas. Mas você conversa cinco minutos com quem se deu ao trabalho de guardar esses materiais, e entende o amor e o encanto deles. Eles não estão ali pra ninguém mais poder vê-los. Eles estão ali porque se não estiverem, não estarão em lugar nenhum.

 

Quando os guardadores desses arquivos te contam o que eles representam, o mundo vai se desdobrando. A gente não reencontra, de fato, a dança, mas a gente ganha um tanto de acesso a ela. Reconstroem-se épocas, retraçam-se histórias, refazem-se coreografias.

 

Onde nos falta um instituto, um espaço, um órgão todo dedicado a registrar, guardar e preservar, vamos cobrindo as faltas com pequenas iniciativas. Algumas delas são pessoais, do tamanho de uma caixa de sapato no fundo do guarda-roupa. Outras, um pouco mais robustas, escapam da casa de uma só pessoa. Se tornam projetos, ganham as redes, aumentam seu volume.

 

São sempre iniciativas atrevidas. Sempre trabalhadas pra fazer aquilo que precisava ser feito por instâncias maiores, e não é. Frequentemente criticadas por serem parciais (e realmente são) mas já são algo, já são muito: são armários maiores, com caixas de mais pessoas, memórias de mais dança. E, no futuro, seremos imensamente gratos por elas.

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