Olhar pra trás

26 de setembro de 2021

Pensa no seu trabalho, e olha pra trás. O que você já fez? Onde você ainda quer chegar?

Com que frequência você olha pra trás, e de fato presta atenção naquilo tudo que você já fez? Essas últimas semanas eu fui tomado por um momento de nostalgia. Meu site, o Da Quarta Parede, está em grande transformação, porque mês que vem ele muda de domínio, de nome, e de cara. Vem ai o Outra Dança. Desde que a estrutura da programação ficou pronta, eu to trabalhando em subir pro site novo todo o conteúdo que eu já escrevi. E nisso vem um rever e reler mais de 50 colunas da 3ºsinal, e os quase 200 textos de crítica que eu publiquei desde 2013.

 

São só 8 anos, mas é ao mesmo tempo aquela sensação de trabalho de uma vida. Eu sempre gostei demais de me enfiar em arquivos, em listas, fotos e videos de obras de coreógrafos e companhias, e organizar, estudar, tentar entender um percurso, uma continuidade, uma proposta de fazer essas coisas existirem em seus tempos.

 

A minha última pesquisa, do pós-doutorado, era toda focada nesse aspecto, coletando, reunindo e tabulando 884 textos de crítica de dança publicados no Estadão e na Folha, desde 1953. Foi delicioso reler um a um esses retratos da história da nossa dança. E também muito incômodo reparar em como eles vão diminuindo mais próximos de hoje.

 

Agora, nesse processo de recuperação da minha própria produção, veio à tona uma outra história, em vários aspectos bem pessoal: lembranças daqueles dias, daqueles teatros, daquelas obras, de quem estava do meu lado, dos momentos da minha vida. Reler o texto tem aquele efeito perigoso da passagem de tempo. Às vezes uma boa surpresa, satisfação com o que foi feito, outras vezes desconfiança, do tipo “nossa, por que eu escrevi isso desse jeito?”.

 

É um impacto gostoso olhar pro volume de publicações. Ao longo desses anos todos, eu sempre me assombrei e me cobrei com a desproporção: é tanta a dança que é produzida por aqui que eu sempre to longe de dar conta de uma parcela minimamente significativa dela. Ao mesmo tempo, olhando ao longo de 8 anos e quase 200 textos, é tanta coisa que eu registrei — e que foi registrada em pouquíssimos outros lugares, e raramente em alguma outra crítica —, que vem uma sensação feliz de sentir que alguma contribuição existe. Quantas vezes a gente se cobra pela desproporção, pelo tamanho pequeno do nosso impacto em cenários tão amplos, e esquece de valorizar o que conseguiu fazer?

 

Relendo os textos dos jornais, eu olhava pra trás pra São Paulo, pra uma cidade e uma dança (muito) anteriores a mim. Encantado, os textos iam me aproximando. Da dança, mas também desses críticos — gente de quem eu sempre quis me aproximar, e que foram meus professores, mesmo que com alguns deles eu nunca tenha nem falado.

 

Olhando pra trás pros meus textos, eu só conseguia imaginar a possibilidade que encanta todo autor: ser lido. E continuar, à distância, mais uma conversa sobre dança. É dessas coisas, a gente continua fazendo porque acredita que é importante, mas nem sempre a gente se dá conta do tamanho do que já fez. Fica aí a sugestão: olhe pra trás.

 

 

(Em outubro, vai ao ar o Outra Dança, um outro espaço pra falar de dança. E a 3ºsinal vai continuar por lá. Logo eu conto mais novidades.)

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