Um universo alheio

18 de julho de 2021

        Eu gosto de entrevistar porque eu gosto de conhecer a história do outro

Esses dias pensei sobre aqueles pequenos presentes que a gente ganha dos nossos trabalhos. A proximidade com alunos, as conversas em eventos e debates, o contato com gente incrível de produção e organização, e, sobretudo, as possibilidade de troca.

 

Eu escrevo para a área de dança da Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira há poucos anos. É um trabalho extremamente gratificante. Eu não escolho, nem sugiro os verbetes em que vou trabalhar, mas a cada nova leva de textos encomendados, fico feliz com as boas surpresas que eles me entregam.

 

Minha parte preferida do processo é sempre a entrevista. É esse o presente que eu ganho nesse trabalho. Nos últimos tempos, as entrevistas tiveram que ficar online, e perderam a dinâmica gostosa de misturar a fala e os arquivos. Aquela coisa única de contar um momento e pegar uma foto, um livro, um caderno, que transporta — entrevistado e entrevistador — pra outro tempo, outro lugar.

 

Mesmo sem o corpo a corpo, não se perde a potência da fala. A presença da pessoa que conta a sua história. E, convenhamos, tem poucas coisas tão impactantes e interessantes quanto ouvir alguém falar da sua história, sua vida, seus trabalhos.

 

Minha reação, horas de entrevista depois, sempre relembra o impacto da dificuldade à frente: como escrever só alguns parágrafos sobre um assunto que renderia alguns livros?

 

No primeiro dos textos, eu lembro de arregalar os olhos olhando pras minhas anotações. Hoje em dia o processo é bem mais tranquilo. Ser objetivo no texto é um desafio possível. Ser objetivo na entrevista, já é uma outra história.

 

Porque aquilo que é gostoso na entrevista, na conversa, no conhecer, dificilmente é objetivo. É o apego, nem sempre lógico, a um momento, uma passagem, uma pessoa, uma obra. E é incrível o quanto esse elemento e esse apego ajudam a enxergar o outro pelos seus próprios olhos.

 

A entrevista é um caso de olhar compartilhado. Entrevistando a gente empresta o olhar, pra poder tentar ver o outro como ele se vê, como ele se mostra, como ele se pensa. Na entrevista, a fala vai dando corpo pra questões estéticas, políticas, culturais, que são totalmente presentes naquilo que é discutido, mesmo quando não se fala de estética, de política, ou de cultura.

 

É perceber o outro além da objetividade, além do objeto sendo discutido. Alguns minutos, ou algumas horas, pra conseguir atravessar a minha cabeça, e o que eu já conhecia, já sabia, já tinha ouvido, e tentar chegar mais perto da cabeça do outro, da voz do outro.

 

É algo parecido com aquela história de que cada livro abre um universo. Só que cada entrevista abre dezenas. De obras, de livros, de danças, de vidas, de universos. E eu me sinto extremamente presenteado com o privilégio de navegar por esses universos.

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