Dança, trabalho e dinheiro

18 de abril de 2021

        Tem quem olhe torto pro atrevimento de se viver daquilo que a gente gosta. Mas arte também é trabalho.

O tabu que dificulta falar de dinheiro, às vezes dificulta a gente discutir, desde cedo, trabalho, salário, e até reconhecimento. Existe uma impressão — bem errada —, de que a arte é uma coisa que está além de algo tão mundano como o dinheiro, mas a gente sabe: trabalho é trabalho, e todo mundo tem contas pra pagar.

 

Trabalhar com arte é complicado. Não porque seja ruim, difícil, desgastante, ou mais trabalhoso que alguma outra profissão. Mas porque tem um estigma bem cansado de que o trabalho é aquilo que a gente faz obrigado, contra a vontade, desgostoso, infeliz.

 

Quando a gente escolhe se dedicar a uma área que a gente gosta, a fazer um trabalho que realiza também pessoalmente, parece que a gente quebra essa pacto de insatisfação coletiva. O resultado é que muita gente vê o que a gente faz como hobby, como diversão, como aquele prazer escondido que deveria ser guardado só pro fim de semana prolongado e pras férias. Como se tivesse dia certo pra ser feliz…

 

Daí vêm as tantas imagens injustas de gente das artes como gente preguiçosa, gente vagabunda. São aqueles que se atrevem a fazer o que gostam, e que arriscam transformar isso em um meio de vida.

 

Arriscam mesmo. A nossa área não é nada simples. Inconstante, sempre com recursos cortados, pouco reconhecida e frequentemente mal paga. Tudo isso entra na conta do que é trabalho. As especificidades dos horários, que normalmente escorregam por cima das possibilidades mais comuns de lazer e de descanso, também não ajudam.

 

A gente faz o que gosta, mas isso não muda o tempo, o investimento, a formação, e a dedicação empregadas. Não é mais rápido, nem menos trabalhoso do que seria fazer um trabalho a contragosto. Mas no imaginário coletivo, às vezes parece que tem um imposto aplicado sobre a realização pessoal, que insiste em desvalorizar o que a gente faz.

 

Daí as percepções complicadas. De que a arte precisa ser de graça, de que a contribuição com o trabalho do artista seja uma forma de demonstração solidária, etc. Na verdade, parece que a gente nunca superou completamente a lógica dos mecenas — do indivíduo ou instituição que “muito generosamente”, mas apenas por sua boa vontade, decide apoiar as artes.

 

O que esse ano de isolamento ajudou a mostrar — pro mundo — é que a arte não é aquela coisa ali no canto esperando caridade. Ela não é só aquilo que precisa receber ajuda. Pelo contrário, ela tem sido a ajuda e o apoio de tantas pessoas, enfrentando tempos difíceis.

 

E essa arte toda têm sido feita em condições ainda mais difíceis, frequentemente ainda mais precárias, e enfrentando ainda mais riscos. Fica uma esperança de que, em tempos melhores, o reconhecimento também venha, e a gente consiga falar mais abertamente sobre o trabalho com arte, e as questões financeiras que precisam acompanhar qualquer discussão sobre trabalho.

Logo_3º_Sinal_preto.png

coluna de dança,

todo domingo

 nos sites:

Logo MUD.png
logo dQP novo JPEG.jpg

fale com o autor

  • Instagram
  • Facebook ícone social
  • Twitter ícone social

(mas fale mesmo,

isso é uma conversa)

a coluna 3ºSinal é uma das ações do daQuartaParede e do PortalMUD apoiadas pela Lei Emergencial Aldir Blanc do município de São Paulo